Se existe uma questão importante e urgente para tratarmos nos dias de hoje, sobretudo no ambiente escolar, essa é a questão do suicídio do público adolescente e jovem.

 

São algumas as variáveis a serem analisadas para chegarmos a alguns motivadores que levam o público cada vez mais jovem a cometerem suicídio: depressão, drogas, abusos e bullying – mas ainda assim, na grande maioria dos casos, os sinais são muito sutis e se faz necessário enxergarmos além deles.

 

Antes de mais nada é preciso “perceber o aluno”, ou seja, olhá-lo de forma acolhedora e demonstrando que seus sentimentos e emoções são realmente importantes para nós.

 

Por se tratar de algo abrangente, há uma grande dificuldade em enquadrar o suicídio num diagnóstico específico, já que não existem “queixas obvias”.  Não podemos dizer simplesmente que a pessoa “tinha depressão” ou “era bipolar” e por isso fez o que fez, porque são muitos os casos de jovens que se suicidam cujos sinais não eram aparentes.

 

A grande questão está em agirmos antes que o suicídio aconteça!

 

Infelizmente, ainda existe muito preconceito em torno da depressão e das doenças relacionadas a ela, principalmente quando tratamos de adolescentes e jovens.

 

Ainda há muito preconceito sobre os antidepressivos, fruto das pesquisas irresponsáveis que são divulgadas, gerando medo na população leiga no assunto. Tal postura insensata acaba retardando o início do tratamento de forma eficaz.

 

A ciência hoje nos permite realizar o exame farmacogenético (que possibilita estabelecer os medicamentos a serem usados naquele paciente específico). Esse recurso favorece a prescrição e o tratamento se dá de forma personalizada.

 

O preconceito em torno da depressão e outras patologias nos adolescentes torna a vida do indivíduo ainda mais difícil, já que a falta de diagnóstico e do tratamento específico intensificam as crises e afastam a pessoa dos “portos-seguros” já estabelecidos desde então.

 

Por não estarem amparados por um acompanhamento especializado, o adolescente depressivo acaba se mostrando desinteressado em suas atividades de lazer, bem como buscando “refúgio” nas drogas ou em companhias inadequadas.

 

O rebaixamento do rendimento escolar ocorre na maioria dos casos, sendo um grande fator a ser observado.

 

 

. Relacionamento social e o papel da escola

 

É inerente ao ser humano a necessidade de interação e de relacionamento interpessoal, ou seja, nós dependemos dos outros para sobrevivermos. Fomos criados com a necessidade de sermos nutridos por outros (seja física e/ou emocionalmente).

 

A relação é um termo muito importante a ser aprofundado, pois alunos ótimos podem desenvolver relações ruins e descaracterizarem-se de seu verdadeiro “eu”, tomando atitudes nos prejuízos advindos dessas relações.

 

No público adolescente as relações se tornam ainda mais intensas, por isso a necessidade de aguçarmos o olhar para com essa questão.

 

Todos nós temos os chamados “instrumentos de sobrevivência”, a saber: instintos, sensações, sentimentos, emoções, cognição, adaptação, fuga e/ou luta, comunicação, relação e etc. Nossa saúde mental depende desses pilares e por isso eles são os “alvos” no tratamento dos distúrbios afetivos.

 

Um dos fatores mais agravante é o chamado “paradoxo da arrogância”, ou seja, quanto mais depressiva a pessoa está, mais arrogante ela se torna, dificultando ainda mais o tratamento e as relações.

 

O adolescente já está enfrentando os “problemas” típicos do desenvolvimento e por isso, torna-se mais vulnerável a deprimir-se e a adoecer emocionalmente.

 

De um modo geral, o processo do adoecimento ocorre por algum agente externo (dívidas na família, cobrança excessiva nos estudos, relacionamentos afetivos, bullying, perdas e etc).  Os adolescentes afetados acabam atribuindo esse agente como o único motivo para a situação em que estão.

 

Há uma grande tendência no aluno em se vitimizar, buscando ser convincente de que o sofrimento vivido foi gerado e é responsabilidade de alguém ou algum fator externo.

 

Por mais que sabemos que o motivo não é um fator isolado necessariamente, eles serviram de “gatilho” para a doença se instalar.

 

Em muitos discursos pré-suicídio ou após a consumação (através de cartas deixadas), os adolescentes costumam dizer que fizeram aquilo para “agredir alguém” ou se “vingar de alguém”. Muitos alegam terem feito para “mostrar que eram capazes”, já que a maioria não levava a sério suas intenções.

 

Muitos cometem suicídio para “evitar” o sofrimento alheio, ou seja, acreditam que morrer seria a única forma de poupar a família de uma angústia maior.

 

Basicamente, os adolescentes sentem falta de ambientes seguros onde possam se abrir e expor os “fantasmas” que criaram em suas mentes em torno do desejo de acabar com a própria vida.

A escola acaba por desenvolver um papel fundamental ao propiciar esse ambiente ao aluno!

 

Uma dica aos educadores: uma das formas mais eficazes de diálogo é exercitar o “apesar de”, ou seja, mostrar para a pessoa que – sim – ela está sofrendo muito e tem todos os motivos para isso, mas – “apesar disso” – vale a pena continuar.

No fundo, tudo o que a pessoa deseja é que seu sentimento seja validado e levado em consideração!

 

O interesse pela solução é mais importante que a solução! Ser percebido e validado é melhor do que ter o problema resolvido em si!

 

Uma forma de contribuir é trazendo temas relacionados aos transtornos afetivos dentro do ambiente escolar, demonstrando interesse pelo assunto e deixando claro que os alunos encontrarão espaço de escuta e acolhimento.

 

Algo fundamental é a presença de um psicólogo escolar e/ou mediadores que exerçam o papel de amparo para tais problemas.

 

 

 

 

 

Papel da família

 

Sem dúvida alguma, a família é o ponto crucial no tratamento dos transtornos afetivos (com raríssimas exceções). É preciso investigar e conhecer a fundo quais historias a pessoa está “contando para si mesma” e validar os sentimentos que estão permeando sua vida.

 

O que cura uma pessoa é a sensação de que é visível e validada!

Muitas vezes a proteção de validada vai atuar até que o remédio faça o efeito necessário!

 

Cabe afirmar que o tratamento por meio do uso de medicamentos NUNCA irá substituir a função exercida pelo carinho, atenção e amor…

 

O aconchego e afeição dos pais continuam sendo os principais causadores de efeitos curadores na vida dos filhos!

 

Apesar de estarem cansados e sobrecarregados pelo enfrentamento da doença, a família não pode agir como se estivesse “terceirizando o problema”, pelo contrário, todos devem fazer parte da rede de apoio e serem também beneficiados desse tratamento.

 

 

. Papel do Profissional de Saúde e/ou Educador

 

Espera-se desse profissional que ele abranja os seguintes tópicos:

 

– Promover a saúde;

– Prevenir;

– Tratar;

– Curar;

– Aliviar

 

Todos devem desenvolver uma mentalidade que se preocupe com a CULTURA do suicídio como um todo, dando atenção às “ondas” que vêm para estimular, sobretudo no ambiente escolar, tais como: baleia azul e bullying.

 

 

. Dados atuais no Brasil

 

Infelizmente as notícias não são boas, já que em média existem 11.000 casos de suicídio por ano, tornando o Brasil o oitavo país no ranking geral.  Computou-se ainda um aumento de 20% na taxa de suicídio na faixa etária dos 15 aos 29 anos, nas últimas décadas.

 

Outra pesquisa realizada mostrou que a cada 100 pessoas atendidas num pronto atendimento, 17 delas já pensaram em suicídio, 05 planejaram, 3 tentaram e 1 consumou o ato.

 

 

. Relação do suicídio com doença mental

 

Antes de abordarmos esse tema, é necessário diferenciarmos um “simples pensamento” de uma “vontade concreta” de acabar com a própria vida. Em outras palavras, temos que buscar discernir quando o adolescente apresenta um discurso pró-suicídio em sua vida de maneira efetiva, e quando não.

 

 

 

Podemos considerar discursos como:

 

1) Vontade de sumir”. A pessoa externaliza uma vontade de sumir das responsabilidades, mas não necessariamente de cometer suicídio propriamente dito;

 

2) Não quero mais viver”. É o que chamamos de “suicídio lento”, onde a pessoa vai se entregando aos poucos, geralmente num processo depressivo. Nesse sentido, o tratamento psicoterápico é essencial;

 

3) Quero (ou estou pensando em) me matar”. Esse discurso é o mais grave, sendo necessário iniciar o tratamento com urgência;

 

As pesquisas apontam que menos de 5% não se encaixam em problemas de saúde mental, o que nos mostra que a maioria dos casos estão comprometidos com algum tipo de desajuste emocional.

 

 

Mitos a respeito do suicídio

 

Não é raro escutarmos discursos a respeito dessa temática. Abaixo listamos os mais comuns:

  • O adolescente se matou porque quis”;
  • “Quem já pensou em se matar uma vez, cedo ou tarde vai concretizar”;
  • “O aluno fez isso para chamar atenção”;
  • “Quem quer se matar, não avisa, vai lá e se mata”;
  • “Não se preocupe, quem quer se matar sempre fala isso alguma vez na vida”;

 

Nem sempre a pessoa que está num processo suicida verbaliza sobre isso. Muitos não falam por medo, vergonha ou para não serem vítimas de preconceito.

 

O silêncio na verdade é o maior inimigo, pois nesses casos não há chance de tratar.

Aqui reforçamos a importância de propiciar um ambiente acolhedor e desprovido de julgamento!

 

 

. Fatores de risco que antecedem ao suicídio

 

– Tentativa prévia (quando a pessoa já tentou outras vezes);

– Doença mental;

– Dependência química;

– Conflitos familiares;

– Estigmas;

– Bullying;

– Preconceito;

– Conflitos sobre a sexualidade;

– Perdas afetivas (de forma traumática);

– Abusos e traumas de infância;

– Outras perdas;

– Genética;

– Doenças incuráveis (na pessoa ou ente querido);

 

 

. Tratamentos preventivos

 

No que tange os tratamentos preventivos para os casos identificados, podemos destacar:

 

– Psicoterapia;

– Terapia ocupacional;

– Uso de antidepressivos;

– Ansiolíticos;

– Hipnóticos;

– Eletroconvulsoterapia (usada para casos mais graves e comprovada cientificamente);

 

 

. Tratamentos sociais

 

Para além dos tratamentos especializados em saúde, podemos fazer uso de uma “rede de apoio” que deve ser acionada para intervir e contribuir conjuntamente.

São os chamados “tratamentos socais”, a saber:

 

– Ambiente escolar acolhedor;

– Professores e/ou equipe de educadores;

– Amizades saudáveis;

– Cuidado destinado aos animais de estimação;

– Dança;

– Esporte;

– Religião;

– Criação de vínculos em geral.

 

 

Pessoas vinculadas são mais resistentes ao suicídio! A vida faz sentido apesar das dificuldades!

 

 

. Paternidade

 

Não podemos culpar as pessoas por transtornos genéticos. Não podemos culpar pais e mães por possíveis erros na relação com os filhos.

Precisamos olhar profundamente para a história de cada pessoa e entender os seus motivos.

 

As pessoas de um modo geral precisam sentir que são amadas, sem que para isso precisem fazer alguma coisa em troca.

 

Precisamos olhar para a família como participante daquele problema, ou seja, todos estão sofrendo conjuntamente com o adolescente. Por isso, temos que prezar para que eles sejam acolhidos, acompanhados, compreendidos e validados!

 

As necessidades de reconhecimento e pertencimento, quando supridas, podem mudar a história de uma pessoa!

 

 

CENTROS DE AJUDA

 

– 3017-2017 – 3223-8477 (Programas para ajudar adolescente);

– 188  – CVV – Centro de valorização da vida